é assim tem sido assim e parece que será sempre desse jeito minha vida de esbarro no esboço aos tropeços aos trancos um acaso danado atrás do outro ao lado nada é planejado nada objetivo cada tiro num alvo num algo vago num ermo num esmo quanto tiro pela culatra quanto passo em falso quanta tacada em vão e vai assim minha vida meus projetos projéteis furtivos balas perdidas sem saquinhos e sem crianças para recebê-las nesse belo dia de Cosme e Damião
arruda, plantambém
jardineiro sem jardim eu vou mesmo sem mim
jardineiro sem jardim vaga jardas e jardas atrás de jasmim
jardineiro sem jardim plantas sem flores também têm odores
jardineiro sem jardim já pensa que o mundo sem fim
a natureza toda que engendra a civilização
o espaço do planeta e além
dos satélites da galáxia e além
via láctea e além
da imensa espiral na qual estamos imersos e além
da coleção toda de galáxias do universo
do universo todo matéria vísivel e matéria escura e além
é tudo somente espaço aberto pra receber a semente
do jardineiro só jardim
+ 1
e mais um assim mais um afim de gerar gerânio de criar crisântemo de brotar begônias por entre as letras pétalas pelas palavras arejar o fraseado com flores esmerilhar as letras pretas até que gerem cores através do atrito do grito do rito da música e do sentido poesia na marra poesia na jarra da sala nítida como um girassol poesia palpável como um botão como um teclado sem finalidade alguma a não ser florir desabrochar abrir o insólito de cada ser alguma hora é a vez de florescer
escapar escapar das limitações das definições dos parâmetros racionais driblar fugir confundir não se deixar aprisionar pelo jugo da razão da ordem da lógica da relação causa/conseqüência ser inconsequente espécie de delinqüente da língua da linguagem da linguaviagem e trazer para cá a experiência para o texto nosso de cada dia para a página da tela fria para essa microcomunicação essa difusão secreta algum signo virgem balança leão fogo cavalo de fogo trazer pra cá o cavalo do lado de lá o cavalo de fogo vivo da chama da comunicação
como fosse jazz como fosse mais e mais e mais, mais elétrico mais veloz mais capaz de provocar visões despertar consciências atravessar corpos e corpos e corpos é uma eletricidade mais sutil e mais feroz é algo que às vezes atravessa minha voz quando eu canto atento quando estou vivo vivendo como correnteza de rio correndo é fluxo é sexo é nexo de conexão entre consciências sejam lá quais forem seja lá o que o for consciência mas é algo que oferece sentido ao ser é desejo de prosseguir é o pulmão a inspirar o ar que entra pelo nariz e torna a sair para depois entrar novo ar e mais e mais e mais e sempre até parar que é o que evitamos é essa luta insana ou sã essa luta inglória da qual provém toda a história a luta por mais um segundo e mais um e mais outro a luta por permanecer ligado aceso vivo um e não zero chama e não cinza brisa e não vácuo vaga e não fossa e como fosse foz como fosse vez como a minha voz quando ela me vê como fosse jazz como fosse paz eu passo passo a passo desse texto da tensão dessa vigília para o sono para o sonho para o som de talvez um jazz onde a cama jaz
tempo raro
céu escuro
escrevo na tela
leio nos muros
tempo raro
chão tão duro
crianças falam
velhos ficam mudos
tempo raro
o mito do puro
ainda persiste
embora obscuro
escrito da madrugada
relógio de amêndoas
relógio das frutas podres
que pingam em ritmo inconstante
atesta o poeta insone
a vida é igual
infinitos relógios se apresentam
o sol o mais antigo
as ondas do mar, as marés
as crianças que crescem
os cabelos, a barba dos homens
hoje de manhã notei que sou de novo
um homem de barba
os pelos brotam como as formigas
do intestino das casas
os relógios vão e vêm
em sua miríade de aspectos
em infinitos tique-taques
vão e vêm
sem quê nem porquê
a não ser, talvez
lembrar-nos que o óbvio
destino de toda criatura
se aproxima mais e mais